Eleições em São Tomé e Príncipe: menos esperança, mais distância entre o eleitor e a política
apenas como um número eleitoral. É um sinal político que merece
ser ouvido e compreendido num país marcado por expectativas sociais,
dificuldades económicas e crescente exigência dos cidadãos.
São Tomé e Príncipe atravessa um momento que merece mais do que uma
simples leitura dos resultados eleitorais. As eleições presidenciais
de 19 de julho de 2026 deixaram um dado politicamente incontornável:
a maioria dos eleitores inscritos não votou.
Segundo o Portal Eleitoral de São Tomé e Príncipe, estavam inscritos
142.191 eleitores e foram registados 58.734 votantes, correspondendo
a 41,31% de participação e 58,69% de abstenção.
É preciso perguntar também quantos cidadãos a eleição deixou de mobilizar.”
Eleitores inscritos: 142.191
Votantes: 58.734
Participação: 41,31%
Abstenção: 58,69%
O eleitor santomense parece estar mais exigente
Durante anos, a política nacional foi fortemente estruturada em torno
das grandes referências partidárias e da disputa entre os principais
campos políticos. A alternância de poder tornou-se parte da experiência
democrática santomense.
Mas a existência de eleições competitivas não significa,
automaticamente, que a confiança dos cidadãos nas instituições
políticas permaneça intacta.
O eleitor pode estar menos interessado em votar simplesmente
“contra alguém” e mais interessado em saber quem consegue responder
concretamente aos seus problemas.
Entre as promessas eleitorais e a vida real
A realidade económica e social tem um peso importante na relação
entre cidadãos e política.
O emprego, o custo de vida, a energia, os serviços públicos,
a educação, a saúde e as oportunidades para os jovens fazem parte
da experiência quotidiana através da qual os cidadãos avaliam
a eficácia das políticas públicas.
Quando uma promessa eleitoral se repete ao longo de vários ciclos
políticos sem produzir mudanças suficientemente perceptíveis na vida
das pessoas, a esperança pode transformar-se em frustração.
E a frustração pode transformar-se em afastamento.
A abstenção como sinal — não como conclusão
Seria, contudo, um erro transformar automaticamente a abstenção
numa declaração coletiva de rejeição da democracia.
Nem todos os cidadãos que não votaram estão necessariamente
desiludidos com a política. Existem fatores pessoais, sociais,
económicos, geográficos e outros que podem influenciar a decisão
de não participar.
Mas uma abstenção desta dimensão merece uma reflexão política séria.
Mais do que perguntar apenas por que razão tantos cidadãos não votaram,
é necessário compreender o que está a acontecer na relação entre
o cidadão santomense e a política.
O problema não é apenas dos partidos
Seria demasiado simples atribuir toda a responsabilidade aos
partidos políticos.
A sociedade santomense mudou. Os cidadãos estão mais informados,
mais conectados e mais capazes de comparar discursos políticos
com resultados concretos.
Uma promessa feita durante uma campanha pode ser confrontada,
quase imediatamente, com a realidade de uma comunidade, de uma
escola, de um hospital, de uma empresa ou de uma família.
Isso aumenta a exigência sobre os políticos e sobre as instituições.
Da política de mobilização à política de resultados
São Tomé e Príncipe precisa de uma política cada vez mais orientada
para resultados verificáveis.
A confiança pública não se constrói apenas durante uma campanha
eleitoral. Constrói-se através de instituições que funcionam,
transparência na gestão dos recursos públicos, prestação de contas,
políticas públicas avaliáveis e capacidade de transformar promessas
em resultados.
mas de cidadãos que sintam que a sua participação produz consequências.”
O desafio para o próximo ciclo político
A grande questão para São Tomé e Príncipe não deveria ser apenas
quem consegue ganhar eleições.
Deve ser também quem consegue recuperar a confiança daqueles que
deixaram de acreditar que a sua participação pode produzir mudanças.
Os partidos políticos precisam de olhar para os abstencionistas
não apenas como números eleitorais, mas como cidadãos que continuam
a fazer parte da democracia.
São pessoas com expectativas, problemas, críticas e, muitas vezes,
esperança — ainda que uma esperança cada vez mais cautelosa.
Se a política continuar a oferecer apenas os mesmos confrontos,
as mesmas linguagens e as mesmas promessas, o afastamento poderá
aprofundar-se.
Mas se houver capacidade para transformar a política numa competição
de ideias, propostas verificáveis, resultados mensuráveis e verdadeira
prestação de contas, este momento poderá transformar-se numa
oportunidade de renovação democrática.
Deve ser encarada como uma mensagem.”
Talvez a pergunta mais importante para os próximos anos seja,
precisamente:
Como voltar a convencer o cidadão santomense de que participar
vale a pena?
Porque uma democracia não se mede apenas pelos que votam.
Também deve saber ouvir os que deixaram de votar.
Nota editorial:
Este artigo é uma análise de opinião. Os dados eleitorais utilizados
são baseados em informação disponibilizada pelo Portal Eleitoral e
em informação institucional do Tribunal Constitucional. A abstenção,
por si só, não permite concluir que todos os abstencionistas rejeitam
os partidos ou a democracia.
-
Portal Eleitoral de São Tomé e Príncipe —
Resultados das Eleições Presidenciais 2026.
Consultar fonte oficial
-
Tribunal Constitucional de São Tomé e Príncipe —
informação institucional sobre o processo eleitoral.
Consultar fonte institucional

