Eleições em São Tomé e Príncipe: menos esperança, mais distância

ARTIGO DE OPINIÃO

Eleições em São Tomé e Príncipe: menos esperança, mais distância entre o eleitor e a política

A elevada abstenção nas presidenciais de 2026 não deve ser vista
apenas como um número eleitoral. É um sinal político que merece
ser ouvido e compreendido num país marcado por expectativas sociais,
dificuldades económicas e crescente exigência dos cidadãos.

Deodato Capela — Opinion Maker

Deodato Capela
Opinion Maker · Analista de assuntos políticos e sociais
26 de agosto de 2026

São Tomé e Príncipe atravessa um momento que merece mais do que uma
simples leitura dos resultados eleitorais. As eleições presidenciais
de 19 de julho de 2026 deixaram um dado politicamente incontornável:
a maioria dos eleitores inscritos não votou.

Segundo o Portal Eleitoral de São Tomé e Príncipe, estavam inscritos
142.191 eleitores e foram registados 58.734 votantes, correspondendo
a 41,31% de participação e 58,69% de abstenção.

“A pergunta já não deve ser apenas quem ganhou a eleição.
É preciso perguntar também quantos cidadãos a eleição deixou de mobilizar.”

Presidenciais 2026 · São Tomé e Príncipe

Eleitores inscritos: 142.191

Votantes: 58.734

Participação: 41,31%

Abstenção: 58,69%

O eleitor santomense parece estar mais exigente

Durante anos, a política nacional foi fortemente estruturada em torno
das grandes referências partidárias e da disputa entre os principais
campos políticos. A alternância de poder tornou-se parte da experiência
democrática santomense.

Mas a existência de eleições competitivas não significa,
automaticamente, que a confiança dos cidadãos nas instituições
políticas permaneça intacta.

O eleitor pode estar menos interessado em votar simplesmente
“contra alguém” e mais interessado em saber quem consegue responder
concretamente aos seus problemas.

Entre as promessas eleitorais e a vida real

A realidade económica e social tem um peso importante na relação
entre cidadãos e política.

O emprego, o custo de vida, a energia, os serviços públicos,
a educação, a saúde e as oportunidades para os jovens fazem parte
da experiência quotidiana através da qual os cidadãos avaliam
a eficácia das políticas públicas.

Quando uma promessa eleitoral se repete ao longo de vários ciclos
políticos sem produzir mudanças suficientemente perceptíveis na vida
das pessoas, a esperança pode transformar-se em frustração.

E a frustração pode transformar-se em afastamento.

A abstenção como sinal — não como conclusão

Seria, contudo, um erro transformar automaticamente a abstenção
numa declaração coletiva de rejeição da democracia.

Nem todos os cidadãos que não votaram estão necessariamente
desiludidos com a política. Existem fatores pessoais, sociais,
económicos, geográficos e outros que podem influenciar a decisão
de não participar.

Mas uma abstenção desta dimensão merece uma reflexão política séria.

Mais do que perguntar apenas por que razão tantos cidadãos não votaram,
é necessário compreender o que está a acontecer na relação entre
o cidadão santomense e a política.

O problema não é apenas dos partidos

Seria demasiado simples atribuir toda a responsabilidade aos
partidos políticos.

A sociedade santomense mudou. Os cidadãos estão mais informados,
mais conectados e mais capazes de comparar discursos políticos
com resultados concretos.

Uma promessa feita durante uma campanha pode ser confrontada,
quase imediatamente, com a realidade de uma comunidade, de uma
escola, de um hospital, de uma empresa ou de uma família.

Isso aumenta a exigência sobre os políticos e sobre as instituições.

Da política de mobilização à política de resultados

São Tomé e Príncipe precisa de uma política cada vez mais orientada
para resultados verificáveis.

A confiança pública não se constrói apenas durante uma campanha
eleitoral. Constrói-se através de instituições que funcionam,
transparência na gestão dos recursos públicos, prestação de contas,
políticas públicas avaliáveis e capacidade de transformar promessas
em resultados.

“A democracia precisa não apenas de eleitores no dia da votação,
mas de cidadãos que sintam que a sua participação produz consequências.”

O desafio para o próximo ciclo político

A grande questão para São Tomé e Príncipe não deveria ser apenas
quem consegue ganhar eleições.

Deve ser também quem consegue recuperar a confiança daqueles que
deixaram de acreditar que a sua participação pode produzir mudanças.

Os partidos políticos precisam de olhar para os abstencionistas
não apenas como números eleitorais, mas como cidadãos que continuam
a fazer parte da democracia.

São pessoas com expectativas, problemas, críticas e, muitas vezes,
esperança — ainda que uma esperança cada vez mais cautelosa.

Se a política continuar a oferecer apenas os mesmos confrontos,
as mesmas linguagens e as mesmas promessas, o afastamento poderá
aprofundar-se.

Mas se houver capacidade para transformar a política numa competição
de ideias, propostas verificáveis, resultados mensuráveis e verdadeira
prestação de contas, este momento poderá transformar-se numa
oportunidade de renovação democrática.

“A abstenção de 2026 não deve ser tratada apenas como uma estatística.
Deve ser encarada como uma mensagem.”

Talvez a pergunta mais importante para os próximos anos seja,
precisamente:


Como voltar a convencer o cidadão santomense de que participar
vale a pena?

Porque uma democracia não se mede apenas pelos que votam.
Também deve saber ouvir os que deixaram de votar.

Nota editorial:
Este artigo é uma análise de opinião. Os dados eleitorais utilizados
são baseados em informação disponibilizada pelo Portal Eleitoral e
em informação institucional do Tribunal Constitucional. A abstenção,
por si só, não permite concluir que todos os abstencionistas rejeitam
os partidos ou a democracia.

Fontes consultadas

Deodato Capela
Opinion Maker · Analista de assuntos políticos e sociais
Centro de Integridade Pública de São Tomé e Príncipe — CIPSTP

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